04 setembro, 2023

Apartamento

Resolvi  jogar o tal xadrez da vida  
Tombei a rainha, o rei e a razão 

Nessa tormenta me agarro onde posso 
O destino é incerto, o leme é a aposta

Entre as certezas obscuras do meu coração
Se acumulam bobagens, verdades e lágrimas 

Linha fina entre o acaso e a descaso
Costura grosseira entre o amor e o rancor

Nesse tear do tempo eu fio uma ponte
Da raíz imaginária ao nectar da fonte

Lá vislumbro morada, acolhimento, estrada
À espera empírica por um tesouro abstrato 

Não acumulo os dias, me escapam as horas
O tempo some, escorre, se desfaz

Mas se hoje o dia foi lindo, durmo em paz

07 janeiro, 2020

Dos dias


Da cabeça, o pescoço
Costura d’alma
Acalma

Da luz puxo um estreito fio
Do fio faço uma arma 
Antídoto súbito para a raiva

Do coração arranco o perdão
As mãos a luta, a raíz fincada no chão
Os pés marcham na imensidão

O branco-névoa acaricia minha boa vista
Estrangula a fumaça parindo nuvens
Doces, lindas, como os dias de paz

No coração espalham-se muitas riquezas
Espaços em branco, chamas, tropeços
Dúvidas que acalantam velhas certezas

Ouvirás meu som, um assobio, um gemido
Rasga-se então minha loucura, essa companheira
Tudo que penso é em vão

01 fevereiro, 2019

Vala comum





nos breves instantes da dor
não há o que contamine
a conquista da sabedoria oca
forjada na incerteza da razão

repousa no arco do dia
o contínuo momentum interno
e­ncaixe simétrico e preciso
entre o prazer e o desespero
                                             
na sela do aqui e agora
somente a cruzada seminal
da solitude e da solidão

a via-crucis se recolhe
apaga-se um altar

a cura dos males da vida
é a fonte dos verdes e azuis
que encapsula os sentidos
e repousa o corpo inerte na luz

o dia está em silêncio

desliza na vala abissal
de uma sensação comum

27 fevereiro, 2018

Risco do Passado






Era hora do crepúsculo e reencontrei o seu olhar
Seu contorno único revelou-se em minha lembrança
Ali entrelaçamos fragmentos da nossa memória
Você vinha do oriente ou fugia de um acidente qualquer
Sem pedir licença, passagem ou permissão para amar

Flutuando meus olhos pelas suas formas de menina                  
Me foi revelada as insuspeitadas curvas do seu sorriso
Traçei minha sina na pele escura riscada em seu ombro
Onde um pássaro raro foi queimado junto ao nosso juízo
Destino gêmeo de uma linda estrela descartada no ninho 

Quando enluarados confessamos segredos obscuros
Me rendi ao charme deste sonho, um barco a vela no ar
Quis ser o seu oposto, o dois, uma conquista sorrateira
Escondia meus segredos infames e falava de paixão
Mas a realidade espelhava a incerteza em seu olhar

No baú dos meus erros reencontro a mesma cicatriz
Quando senti a negação de sua forma em estado bruto
Encontrei o ser orgulhoso, um menor, um aprendiz
Que angustido se viu segurando a tocha do desejo
Em busca de mais uma dose, uma contra-dança, um beijo                   

Quando se levanta a lona do circo do amor
Somos o palhaço sem nariz, sem público, sem picadeiro
Somos malabaristas da alegria, miseráveis, mágicos
Seres que se jogam no escuro profundo da própria retina
Equilibrando a amizade nos pratos inseguros da razão






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02 outubro, 2017

Finalização



A boca do precipício da nossa harmonia escancara-se sob nossos pés
Expondo toda a fragilidade de um amor que anda firme como criança
Sopravas um dente-de-leão esvoaçante nas minhas memórias de rodapé
Nota fora do tom executada com maestria no contratempo de nossa dança
Queimamos no fogo ideias vívidas, revelações afobadas, teorias desencontradas
Mas suas certezas perfuram meu coração como o cume pontiagudo de uma lança
Sentença sumária proferida no calor errante de uma triste metrópole

Esquecendo-se da paz silenciosa que sobrevoou o nosso leito de amor

Não consigo remover os véus ocultos por trás deste mistério profundo
Sigo confiante que o coração será acalentado por uma lógica incontestável
Mas tudo o que vejo agora no nosso horizonte é opaco, obtuso, insosso
Tento segurar com minhas mãos trêmulas o fruto deste aborto
Queria poder nadar novamente solto no mar da nossa paixão
Chegando inteiro na praia, te imagino novamente um imenso oásis, um porto
E sorrateiro tasco um beijo na boca do absurdo imaginário desta sua razão

12 abril, 2017

A última valsa da dor




A solidão enlaça a consciência que faz perceber o momento presente
E lá não encontra os erros recorrentes dos ciclos perfeitos da ilusão
És a dor dos miseráveis, dos ardentes de paixão, dos moribundos
Ou as lindas festas à luz do luar onde lhe via passar calada, sorrateira
Onde admiravas pelas frestas o torpor, os sorrisos fartos – a alegria

És a luz que se fez presente na intensidade ensurdeçedora da escuridão
Infinito que se dobrou em partículas sincronizando o seu passo
Onde entrelaço a sua mão com a minha e dançamos uma valsa estranha,
Como um arco e uma flecha esticada no limite exato, como um compasso
Retesado pela sagacidade azeitada nos limites insanos da razão

Em vão, estamos cavando fundo as rasas certezas de tudo o que foi vivido
Uma vivência inexata que se equilibrou nas leis indomáveis da sorte
E quando o dia vem clarear a insanidade, quem sabe o clamor da idade
Ou a vontade de partir do mundo por dever cumprido
Subtraistes uma noite quando chegastes quieta, trazendo o barulho do nada
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E deste nada construistes o alicerce majestoso da minha morte